Neste
instante, me vejo criança, pulando corda, olhando a corda girar e ensaiar a
entrada neste movimento, me envolvendo no compasso desse giro, pulando no
momento exato para não errar e sair da brincadeira! E toda essa agitação
findava com o chamado de minha mãe para dormir: após um copo de leite, a cama
suportava meu último pulo, meu rendimento ao cansaço das brincadeiras.
Recordo
bem de Totonha, bem velhinha, o rosto tão enrugado que eu examinava
curiosa, perguntando o porquê de tantas
marcas naquele rosto. E ela respondia, minha fia, isso é o tempo. Ele não
espera, só corre como o vento e um dia a
gente vê que ficou véio!
E eu
já pedia as bolachas americanas, com aquele sabor crocante, torradinhas, que eu
comia repetidas vezes! E Totonha ali ficava rindo de minha gulodice e fiando
aqueles lindos bicos de renda numa grande almofada cheia de alfinetes! Eu
tentei aprender, mas não levava jeito prá contar os pontos, me dava um sono
danado e logo desistia, me despedindo e correndo para procurar aquelas
lagartixas verdes chamadas calangos, no jardim de meu avô. Meu primo com o
estilingue, perseguia as coitadas até
acertar uma com aquela arma de menino! Eu reclamava, mas ele ficava rindo e
saía correndo pra mostrar ao meu avô o bichinho quase morto!
À
noite, meu avô andava pela casa, arrastando os chinelos e rezando baixinho
enquanto ia fechando todos os janelões daquele casarão. E eu me deitava
naqueles lençóis de linho, engomados com ferro de brasa que deixava neles um
cheiro leve de carvão queimado. A casa toda se rendia àqueles sons peculiares:
o arrastar dos chinelos de meu avô, seu sussurro na oração, o barulho dos janelões fechando e o velho relógio de carrilhão marcando nove
horas da noite!
De
madrugada, antes do sol nascer, todos se acordavam, comiam uma fruta e iam para
a praia: meu avô, minha avó, a empregada Maria, eu e meu primo Vadinho. Era uma
aventura sair no escuro e ver o sol nascer na praia, um espetáculo de luzes
vermelhas e alaranjadas no céu! Esse banho de mar renovava nossas energias de
criança e logo após o café da manhã, íamos em busca das brincadeiras naquele
imenso jardim e quintal! Meu avô, homem do interior, amava mexer na terra,
plantando flores e legumes usados no preparo dos alimentos.
Como
dizia Totonha, em sua sabedoria de gente do interior, o tempo não espera, só
corre como vento!
