Noite escura, vento a assobiar prenunciando
tempestade. A lua amedrontada se escondeu por trás das densas nuvens. Olho pela
janela a rua deserta e fria. Diviso no relfexo da vidraça meu rosto marcado
pela trajetória de minha vida: revejo, como numa reprise de um filme, todos os
momentos vivenciados, com muitas lições das quais eu, aluno jovem e
curioso, tive que aprender. Lições que,
por ironia do destino, resultaram de um aprendizado através da dor; sim, porque
as decepções e quedas são as garras do destino a nos impulsionar a adquirir
alguma sabedoria. Episódios de alegria e tristeza ressurgem na tela de minha
memória: em um segundo cá estou, menino de calças curtas, atendendo ao chamado
de minha mãe, nas badaladas do meio-dia, a me despedir de meu pai em seu leito
de morte, aonde chego amedrontado, me aproximando devagar para lhe pedir a
última benção. E ele partiu naquele mesmo dia!
Minha
mãe, viúva muito jovem, atendeu ao
convite de meu avô Basílio, pai de meu pai, para morar com ele e a esposa na
Rua Duarte Coelho: me vejo então correndo, bolsos cheios de bolas de gude, olhos
ávidos a procurar um companheiro para disputar uma partida. Empinar pipas
coloridas, brincar de amarelinha ou pular corda, eram os folguedos de infância
que me ajudavam a dispersar as energias de criança, além da travessuras com os
meninos novatos na vizinhança: havia uma brincadeira que consistia em correr
com um cabo de vassoura com a ponta suja de lama e o garoto teria que alcançar
e segurar, sem saber que sairia com as mãos sujas e suportando as minhas
risadas e a de meus irmãos!
Em
outro segundo me vejo em plena adolescência, estudando em colégio interno, ainda morando na casa de meu avô Basílio, avô
amado e temido por sua extrema rigidez na educação dos netos, cujo olhar já nos
transmitia a hora de sair da sala para não ouvir a conversa dos adultos. Lembro
do som de suas pisadas no assoalho de madeira da velha casa, que nos fazia
esconder rapidamente o cigarro recém-aceso. A casa de meu avô, austera e
convencional como o seu dono, aonde às refeições só era permitido o som do
tilintar dos talheres à mesa.
Minhas
férias do colégio eram apenas uma mudança de uma austeridade para outra, com o
acréscimo de alguma liberdade de sair à rua com a hora rigidamente marcada para
voltar: ai de mim e meus irmãos se não estivéssemos em casa às nove horas! Meu avô já aguardava na porta, chibata na mão
e gritos de reclamação que muito faziam a minha mãe sofrer nesses momentos! Foi
um período de muito aprendizado na vida, onde nos fortalecemos com a vontade de começar a trabalhar e ter uma independência financeira que nos permitisse morar
com minha mãe e irmãos em nossa própria casa.
Olho
novamente minha imagem na vidraça e vejo o que restou: alguém que mantém o bom
humor mesmo diante de tempestades na vida, alguém cujas vitórias e fracassos foram sempre um estímulo para seguir adiante, buscando forças internas que me
impulsionavam à superar os obstáculos. E a solidão que me invade alma neste
momento é apenas a companheira necessária e dileta de alguém que não gosta de
estar só, mas que, contraditoriamente se sente bem com a solidão!
Apago
o cigarro, busco meu violão e deixo seus acordes me despertarem para o presente,
com a sensação de momentos bem viividos e do dever cumprido nestes cinquenta e
cinco anos!
Ao meu querido
pai Reginaldo, cuja vida foi para mim precioso aprendizado e exemplo de um pai
afetuoso e amigo!