quarta-feira, 16 de maio de 2012

SOLIDÃO


Noite  escura, vento a assobiar prenunciando tempestade. A lua amedrontada se escondeu por trás das densas nuvens. Olho pela janela a rua deserta e fria. Diviso no relfexo da vidraça meu rosto marcado pela trajetória de minha vida: revejo, como numa reprise de um filme, todos os momentos vivenciados, com muitas lições das quais eu, aluno jovem e curioso,  tive que aprender. Lições que, por ironia do destino, resultaram de um aprendizado através da dor; sim, porque as decepções e quedas são as garras do destino a nos impulsionar a adquirir alguma sabedoria. Episódios de alegria e tristeza ressurgem na tela de minha memória: em um segundo cá estou, menino de calças curtas, atendendo ao chamado de minha mãe, nas badaladas do meio-dia, a me despedir de meu pai em seu leito de morte, aonde chego amedrontado, me aproximando devagar para lhe pedir a última benção. E ele partiu naquele mesmo dia!
Minha mãe,  viúva muito jovem, atendeu ao convite de meu avô Basílio, pai de meu pai, para morar com ele e a esposa na Rua Duarte Coelho: me vejo então correndo, bolsos cheios de bolas de gude, olhos ávidos a procurar um companheiro para disputar uma partida. Empinar pipas coloridas, brincar de amarelinha ou pular corda, eram os folguedos de infância que me ajudavam a dispersar as energias de criança, além da travessuras com os meninos novatos na vizinhança: havia uma brincadeira que consistia em correr com um cabo de vassoura com a ponta suja de lama e o garoto teria que alcançar e segurar, sem saber que sairia com as mãos sujas e suportando as minhas risadas e a de meus irmãos!
Em outro segundo me vejo em plena adolescência, estudando em colégio interno,  ainda morando na casa de meu avô Basílio, avô amado e temido por sua extrema rigidez na educação dos netos, cujo olhar já nos transmitia a hora de sair da sala para não ouvir a conversa dos adultos. Lembro do som de suas pisadas no assoalho de madeira da velha casa, que nos fazia esconder rapidamente o cigarro recém-aceso. A casa de meu avô, austera e convencional como o seu dono, aonde às refeições só era permitido o som do tilintar dos talheres à mesa.
Minhas férias do colégio eram apenas uma mudança de uma austeridade para outra, com o acréscimo de alguma liberdade de sair à rua com a hora rigidamente marcada para voltar: ai de mim e meus irmãos se não estivéssemos em casa às nove horas!  Meu avô já aguardava na porta, chibata na mão e gritos de reclamação que muito faziam a minha mãe sofrer nesses momentos! Foi um período de muito aprendizado na vida, onde nos fortalecemos com a vontade de começar a trabalhar e ter uma independência financeira que nos permitisse morar com minha mãe e irmãos em nossa própria casa.
Olho novamente minha imagem na vidraça e vejo o que restou: alguém que mantém o bom humor mesmo diante de tempestades na vida, alguém cujas vitórias e fracassos foram sempre um estímulo para seguir adiante, buscando forças internas que me impulsionavam à superar os obstáculos. E a solidão que me invade alma neste momento é apenas a companheira necessária e dileta de alguém que não gosta de estar só, mas que, contraditoriamente se sente bem com a solidão!
Apago o cigarro, busco meu violão e deixo seus acordes me despertarem para o presente, com a sensação de momentos bem viividos e do dever cumprido nestes cinquenta e cinco anos!

Ao meu querido pai Reginaldo, cuja vida foi para mim precioso aprendizado e exemplo de um pai afetuoso e amigo!

6 comentários:

  1. Querida Rosina,
    Que belo texto, que belo blog.
    Você está de parabéns e nós por podermos ler aqui suas palavras de sensibilidade e humanidade.
    Bjs,
    Angela

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  2. Rosina,que lindo texto.
    Seu blog esta ótimo.
    Adorei a sua iniciativa.
    Parabéns...
    Bjs.

    Vera Lucia.

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  3. Rosina, vá em frente, vejo que tem muito para nos contar...

    Um abraço

    Lucia

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    1. Lúcia, obrigada pelo incentivo! Essa história foi uma das muitas que meu pai contava de sua infância! Me coloquei no lugar dele vivenciando essa memória.

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