Ali estava ele, sentado na calçada: roupas escuras como a fuligem das ruas, apenas um braço, chapéu surrado, olhar vazio, cansados de ter esperanças, apenas vivendo a expectativa de cada dia, a luta para não sentir fome.
Carregava em seu ser, os segredos de um passado que ficou para trás, esquecido na anestesia do não sofrer: que infância teria vivido? Onde sua família vive agora? Como ele perdeu seu braço? Ele sente saudades desse tempo que ficou para trás? O mendigo carrega em si toda uma história que jaz no fundo de sua alma.
As pessoas passam apressadas, sem notar aquele ser invisível. Mas ele já se acostumou a essa obscuridade, apenas olha as pessoas e estende a mão sem nada falar. De vez em quando, acaricia o cachorro, seu fiel companheiro das noites de solidão, seu único elo com a afeição que não recebe de ninguém. O animal permanece sentado, olhando para ele com o amor que sabe oferecer: ele sabe que, do pouco que conseguir naquele dia, será repartido com ele algum alimento. E apenas espera, como seu dono.
Num mundo de tanta comunicação, as pessoas estão perdendo a mais importante, que é olhar nos olhos, conversar com alguém pessoalmente, sentir o afeto de outra pessoa. Muitos que por ali passam em seu caminho, estão de olhos baixos, voltados para o celular, na ilusão de que têm muitos amigos, têm muitas boas conversas, na ilusão do mundo virtual.
E o mendigo que nada sabe de toda essa tecnologia, apenas olha, observa o mundo e acaricia seu cão.