
Olinda é uma cidade onde o antigo e o moderno
coexistem, não só na sua arquitetura,
mas nos hábitos e costumes de seus moradores. Entre esses hábitos ainda há
aquele jeito das pessoas simples do interior, de colocarem suas cadeiras na
calçada para uma prosa. Esse costume ocorre
mais na cidade alta, onde as casas históricas e seus moradores, muitos
já bem antigos, preservam mais as tradições. Também existe a torcida por esta
ou aquela agremiação carnavalesca, onde a antiga competição dos admiradores da
Troça Pitombeiras dos Quatro Cantos e Elefantes de Olinda, deu origem a muitas
brigas de vizinhos em época de carnaval, o que hoje acontece de forma mais
tranqüila na curtição apenas da alegria do carnaval.
Dentre essas tradições, não pudemos deixar
de citar as figuras populares da cidade, como O Lorde, um senhor que sempre
saia fantasiado de fraque, cartola e guarda-chuva aberto, percorrendo as ruas
atrás das troças de frevo, Tonha Preta e Diamantina, homossexuais que, há
quarenta anos atrás eram um acontecimento, mas que eram vistos, apesar da
discriminação, com um certo respeito pelo povo. Diamantina era um negro alto,
muito bonito e forte, que enfrentava a polícia com toda coragem para não ser
preso. Tonha Preta era um negro franzino, calmo e cozinhava como ninguém! Ainda
lembro das passas de caju que ele fazia e vendia nas portas das casas e que
minha mãe sempre comprava para meu deleite!
Mas a figura que para mim traz mais
lembranças é o Zé Doidinho! Nunca soube o nome dele, mas lembro que meu pai
sempre conversava com ele e lhe dava umas moedas. Zé Doidinho se sentava na
porta da Igreja de São Francisco e pedia uma moedinha às pessoas que saiam da
igreja ao final da missa. Ele gostava de cantar a mesma cantiga: “Eu sou da
banda do Liceu/ Toda morena só gosta de eu!” ou então, se alguém pedisse a ele
prá chorar, ele enchia os olhos de lágrima e chorava de verdade! Eu ficava
observando aquele homem, tão reduzido a sua inferioridade e conformismo com sua
condição, ao mesmo tempo com uma aura de pureza e infantilidade, e sentia muita
pena! Até hoje não sei o seu destino,
como morreu e como foi socorrido pelas pessoas, mas seu olhar ingênuo e triste
me ficaram na memória!