CHEIRO DE
PITANGA
Ana Rosina Raposo Rodrigues
Se tem um perfume especial que me transporta à infância é o cheiro de
pitangas. Após meus sete anos, meus pais se mudaram para uma casa que ficava em
uma ladeira de frente para a igreja de São Francisco em Olinda. A casa, bem
típica das moradias daquelas paragens, era bem singela, pequena e acolhedora.
De lá eu avistava o Cruzeiro, uma enorme cruz de concreto no centro de uma
pequena escadaria da qual o povo contava histórias de assombração.
Na lateral da casa, uma ladeira com muitos pés de pitanga e de palma, um
tipo de cacto que cresce no interior e que serve de alimento para o gado. Eu,
menina de pés descalços, explorava aquela pequena floresta em busca das
pitangas tiradas direto do pé, de onde se espalhava no ar aquele perfume que
ficou em minha memória. Levava sempre uma faquinha para cortar pedaços da palma
e tirar de dentro uma espécie de geléia transformada em papa para servir às
bonecas.
Certa vez, duas lagartixas passaram por mim numa enorme correria e uma
delas chegou a subir nas minhas pernas. Imaginem os gritos que dei assustada
com aqueles monstros parecidos com um jacaré!
À tarde ia sempre na casa de Dona Zezé comprar cocada bem pretinha que
eu comia com aquela gula de doces própria das crianças. Sentava na calçada para
o jogo das pedrinhas, seixos lisos encontrados na rua sem calçamento.
Ao cair da tarde, ficava em frente da casa, banho tomado, roupas limpas
pelo zelo de minha mãe, esperando a passagem dos frades franciscanos que
passavam por ali com freqüência, não sem antes ouvir de mim: _ Bença padre, me
dá um santinho!
O frade tirava do bolso da batina aquele santinho de papel que ia para a
minha coleção e lá ia eu subindo a ladeira na maior alegria!
Às dezoito horas o sino da igreja tocava e eu ficava na janela
observando aquele momento de paz, onde a natureza mostrava toda a beleza da
chegada da noite.
Era um momento mágico, onde os
pássaros voavam em busca de abrigo e onde o silêncio se fazia após o toque do
sino da igreja, as folhas das árvores se encolhiam e pairava no ar todo aquele
recolhimento! Era neste instante que eu sentia uma felicidade genuína, simples
como aquela casa em que eu vivia, me deixando saudades ao lembrar desse
momento, saudades do cheiro de pitanga!
Esse foi um momento de saudades daquela casa singela, uma vida simples, uma infância de fato pura e cheia de fantasias e brinquedos.
ResponderExcluirZina, as pitangas também me levam à infância, e por coincidência, a Olinda. Ao convento das Irmãs Dorotéias nós, alunas do Colégio São José, íamos de vez em quando. Lá havia sempre à nossa espera centenas de pitangas nas duas cercas vivas da entrada. Se coloco uma na boca, me vem à memória aqueles momentos.
ExcluirSua crõnica me trouxe essas lembranças, que delícia, com sabor de pitanga!
Que bom recordar esses bons momentos!! Eu estudei na Academia Sta. Gertrudes, mas nunca estive neste convento, tão perto de meu colégio.
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